São Sebastião era um soldado romano que foi martirizado por professar – e não renegar – a fé em Cristo Jesus. Sua história é conhecida somente pelas atas romanas de sua condenação e martírio. Nessas atas de martírio de cristãos, os escribas escreviam dando poucos detalhes sobre o martirizado e muitos detalhes sobre as torturas e sofrimentos causados a eles antes de morrerem.

Essas atas eram expostas ao público nas cidades, com o fim de desestimular a adesão ao Cristianismo.

No arquipélago de Marajó, São Sebastião é chamado de Glorioso. Por lá, o santo mártir e guerreiro, que sobreviveu a flechadas e não desistiu de seguir a fé cristã, é o Patrono dos campos, que protege o rebanho de doenças.

No território – cuja criação de gado é uma das atividades econômicas de maior destaque – a devoção ao protetor dos animais se espalha por 16 municípios compreendidos em três microrregiões: Arari, Furo de Breves e Portel.

O exemplo de fé e força que o Glorioso representa para o povo marajoara é visto em muitos pedidos de cura e outras preces direcionadas à imagem de São Sebastião. Em toda a região, vinculada ao Estado do Pará, são registradas 45 celebrações ao santo. Desde 2013, as Festividades de São Sebastião – na Mesorregião do Marajó – realizadas de 10 a 20 de janeiro, são reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial do país – pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Já alcancei muitas graças, incontáveis. Se pedir a ele uma resposta, com fé, tudo vem. Ele dá retorno imediato para tudo. Meu pai teve problemas de saúde, dobrei os meus joelhos e pedi ao santo. Minha mãe é devota. Sempre fiz trabalho voluntário e, quando me aposentei, passei a trabalhar para ele”, diz a coordenadora da Irmandade do Glorioso São Sebastião de Cachoeira do Arari, a professora aposentada Mercês Cardoso, que “se arrepia só de ouvir o nome do Glorioso“.

Novenas, missas, procissões, levantamento do mastro com a bandeira da festa, cortejos, alvorada festiva e outras atividades culturais estão presentes nos festejos marajoaras. No período festivo, é comum as cidades receberem visitantes de outras partes do país ou até de outros municípios da grande região do Marajó. As riquezas naturais e belas paisagens de cada local são separadas por longas distâncias, percorridas em viagens de barco que podem durar dias. De acordo com as características de cada lugar, a festa ganha novos perfis. Nas áreas de campos inundados, fazendas e vaqueiros marajoaras têm destaque. Em meio a rios e igarapés, os cortejos com o santo são feitos nos cascos ou montarias. Seja em embarcações, a pé, a cavalo ou búfalo, a imagem de São Sebastião é levada a diversos pontos das cidades. Na microrregião de Furo dos Breves, o santo também é associado ao cultivo da terra ou pesca.

A Festa em Cachoeira do Arari

Em Cachoeira do Arari, é realizada uma das festas de maior expressividade, a que motivou o reconhecimento das celebrações como patrimônio do país. Ladainhas, folias, luta marajoara, corrida de vaqueiros e a culinária típica são os destaques nos festejos da cidade. Segundo a Irmandade do Glorioso São Sebastião de Cachoeira do Arari, nos dez dias festivos, estima-se que sejam recebidas mais de 20 mil pessoas.

Um dos pontos altos, que reúne mais gente, é o Levantamento do Mastro, na abertura da festa. Ou melhor, para o Levantamento dos Mastros, pois na cidade são 3 (três).

Um carregado por crianças, outro por mulheres e um ainda por homens. No dia 10 de janeiro, todos os participantes se juntam ao público para receber a Imagem Peregrina, acompanhada por foliões. Ela é levada da última fazenda até a Porteira da Cidade – através do grupo de rezas e ladainhas. Em seguida, todos partem em cortejo até um arraial, um espaço próximo à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Outro momento de grande aglomeração é o Encerramento da Festa, marcado pelo corte e derrubada do mastro.

O que torna a festa de Cachoeira do Arari diferente é que ela consegue extrapolar a devoção religiosa, mantendo as tradições seculares, associadas à festa. A transmissão de conhecimento dessas tradições entre gerações e o envolvimento do povo está além das procissões, ladainhas e missas”, afirma o coordenador executivo da irmandade, Carlos Alberto Leão. “É a que tem maior público, principalmente na Bacia do Arari, que também abriga os municípios de Ponta de Pedras, Santa Cruz do Arari, Salvaterra e Soure. Nessas cidades, se formam verdadeiras caravanas para assistir à festa”, ressalta Carlos Alberto, envolvido na organização do festejo desde 1994. Para ele, a chegada do santo à cidade, depois de meses de peregrinação, é o momento mais emocionante da festa.

A festa cachoeirense conta com atrações como corridas competitivas de cavalo de curtas distâncias (ou porfias de cavalo); competição de tirar argolinhas (em que cavaleiros montados devem arrancar argolas presas em hastes suspensas); a luta marajoara; a comissão de foliões nativos e devotos que peregrinam por campos, vilas, fazendas e retiros, rezando ladainhas e tocando folias. Além disso, há tradicionais bandas de música, cortejos culturais, arraial, leilões, bingos, comidas e bebidas típicas (como a linguiça marajoara, o frito do vaqueiro e o leite de onça). “Todos esses são bens culturais associados à festa que a tornam singular”, destaca Carlos Alberto Leão.

A luta marajoara só acontece em Cachoeira do Arari. É lá que o frito do vaqueiro (carne frita com sal) é servido; além do leite de onça (leite de búfala com álcool e essência de baunilha), durante o corte da madeira para o mastro ou no trajeto da comitiva que o transporta”, conta a socióloga Carla Belas.

Uma alvorada festiva com banda de música abre o dia 10 de janeiro. Uma procissão com a Imagem Peregrina sai às 14 hs para a entrada da cidade. Lá, eles encontram os mastros da festa. Da casa de cada um dos juízes do mastro sai a concentração de pessoas. Quando os dois cortejos se encontram, na Porteira do Município, a multidão se junta para tocar e acompanhar o santo. De lá, seguem todos para o Arraial da Festa, onde a bandeira é hasteada e barraquinhas são montadas. Às 19h, uma missa é celebrada na igreja. Quase todos os dias se ouve fogos de artifício. No dia do santo, 20 de janeiro, é feita uma celebração para a derrubada do mastro.

O santo é relacionado aos soldados, atletas, além de ser conhecido como padroeiro de vaqueiros, seringueiros, pescadores e agricultores marajoaras, bem como protetor contra epidemias e doenças dos animais. A origem da Festa do Glorioso São Sebastião, no Pará, remonta ao século XVIII.

Fotos: Inácio de Souza

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